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Uma Entrevista com o Professor Ye Xin

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Discípulo formado pelo Grão-Mestre Chan Kowk Wai  陳國偉 , e uma referencia no Brasil na aplicação do kung fu tradicional, o professor Ye Xin é proveniente da cidade de Wenzhou (温州) na província de Zhejiang (浙江), China. Ele veio para o Brasil aos 13 anos de idade, e desde estão prática o estilo Shaolin do Norte 北少林拳門 .

Em 2013 iniciou sua jornada como professor, e hoje ministra aulas na sua própria academia, a escola de kung fu Zen Marcial 禅武门.

Professor Ye e seus alunos

Como você começou a praticar as artes marciais chinesas e por que?

Comecei a treinar kung fu aos 13 anos, no ano de 2000 quando cheguei no Brasil, meu pai é amigo do mestre Chan. Sabendo que eu era fraco e ficava sempre doente ele me colocou para treinar com o Mestre para ficar forte e saudável.

Professor Ye demonstrando um Taolu

Pode nos falar sobre o seu estilo de kung fu e o seu Mestre?

O mestre Chan chegou no Brasil nos anos 60 e ensina kung fu desde então.
Ele treina desde os 4 anos de idade e até hoje com os 87 anos de idade ele ensina pessoalmente os seus alunos.

A maestria dele vai além da arte marcial, é um exemplo de bondade, paciência e compreensão. Sempre ajudou o próximo, trabalhou muito para a comunidade chinesa no Brasil e curou inúmeras pessoas doentes com sua habilidade sobre qiqong (氣功) e medicina chinesa.

Prático como estilo principal o Shaolin do Norte. Além dele também outros como Choy Lee Fat (蔡李佛), Garra de Águia (鷹爪派), Louva a Deus (螳螂拳), Xing Yi (形意拳) , Tai Chi ( 太極拳), Ba Ji (八極拳), Liu He ( 六合拳), Luo Han ( 罗汉拳). Todos esses ensinados pelo mestre Chan.


Também prático Boxe Chinês (San Da) e um pouco de Jiu Jitsu.

Você começou a treinar para fortalecer o corpo, como você o resultado hoje? Como você acha que o kung fu tradicional ajuda nisso?

Quando comecei a treinar por saúde, notei nitidamente crescimento muscular, aumento do apetite, minha postura mudou, fiquei mais forte, tudo mudou, aumentou a auto confiança… o kung fu tradicional tem muitos movimentos intensos, chutes altos, socos longos, rasteiras, pulo… por treinar shaolin, isso fez meu corpo todo se desenvolver ele não é limitado a base alta ou base baixa, como mexe o corpo inteiro, eu trabalhei o corpo como um todo.

Antes de treinar, os médicos falavam que esporte não era pra mim, você é fraco, você nunca vai conseguir correr etc, hoje eu corro 10 km, brincando, e faço vários taolus, puxo ferro… tudo depende de você.

O kung fu tradicional tem a parte das respirações, que ajuda a entender como funciona a energia e fortalece os órgãos por dentro.

Como foi sua viagem a China para treinamento ?

Viajei a China a convite do mestre Chan, ele poderia escolher um aluno para fazer um treino de 1 mês na China, ele me escolheu para fazer esse treino com um grupo de leão, ali eu conheci pessoas do mundo inteiro que dançam leão, muitos lutam e treinam kung fu, passamos um mês intenso de kung fu wushu e até os movimentos de leão, como treinamentos de preparo físico, no final desenvolvemos uma coreografia de leão para finalizar o nosso treino.

Esse treino foi fundamental pra mim porque mudou a minha visão sobre kung fu porque tinha uma visão limitada a da nossa academia, vendo o treino do pessoal da China, eu consegui com o conhecimento que tenho, sistematizar um processo de treinamento cientifico, eu vi que na China, todo o processo de treinamento faz sentido, um treinamento puxa o outro, e assim vai gradualmente até chegar na parte dos taolus e da luta. Então foi importante porque eu consegui desenvolver uma visão apurada de montagem de exercício e encurtar o caminho pra atingir resultados com os alunos, com isso montei meu próprio treino.

E tudo isso foi graças ao mestre Chan por essa oportunidade que ele me deu pra me descobrir como professor de kung fu e como praticante, quando voltei, trouxe um leão de presente para o mestre Chan, um leão vermelho. Abriu minha visão sobre dança de leão, como tem gente dançando estilos diferentes, como o kung fu, os leões, tem estilos diferentes de dança, de toque, de tipo de cabeça de leão, tudo isso foi muito importante pra mim, foi um divisor de águas, e eu consegui ampliar minha visão, e assim conheci muitos outros amigos e muitos outros estilos, tudo mudou para melhor.

Além da saúde, você desenvolve bastante a parte de aplicação dos movimentos tradicionais, isso foi incentivado pelo seu mestre ?

O mestre Chan sempre me incentivou a lutar, porque ele sabe que gosto de lutar, sempre me falou para lutar. Mas na academia do mestre as pessoas tem objetivo de treinar para a saúde e conhecimento sobre kungfu, então nunca encontrei muita gente para lutar, tinha meu amigo Carlos Victor, mas ele parou de treinar, depois conheci o williams, mas eu sinto que existe um limite de luta na academia porque o principal objetivo do mestre é a saúde. Então fui buscar mais conhecimento sobre luta, fiz um treinamento com um mestre que veio da China, de Sanda, em campinas, e ai conheci o Sanda e comecei a treinar o Sanda, através de amigos, colegas, e foi parcialmente autodidata porque não tinha ninguém para treinar, então fui desenvolvendo os treinos e pedindo ajuda das pessoas e com alguns vídeos também, e comecei a lutar nos campeonatos estaduais e seletivas, e sempre encontrava amigos de outras academias que me davam dicas e ajudavam, me davam treino e me motivavam.

Então fui lutando, participei de 6 campeonatos e 8 lutas, com a experiência que tive lutando Sanda, no ringue, consegui abri o olho e observar os movimentos de tradicional e dentro dos movimentos de tradicional já estão os movimentos que usamos no sanda, com mínimas diferenças, mas o núcleo dos movimentos é igual, porque acredito que o corpo humano é feito de um jeito que os movimentos principais não fogem de alguns poucos, então esses poucos movimentos que entendi no sanda e voltei para ver os movimentos de tradicional, observei que estão todos la. Mas não terei isso se não tivesse tido a experiência de combate real, uma luta de ringue valendo soco, chute e queda, sem passar por essa experiência não teria como você entender, a experiência é o núcleo do kung fu, pra você ter um bom Taolu você tem que fazer muito Taolu, pra lutar bem tem que lutar muito, e não só lutar com seu pessoal e o pessoal da sua academia, mas lutar fora, isso é zona de conforto, podemos começar lutando com os amigos e depois vamos lutar fora, e com esse experiencia você vai descobrir o que é bom e o que não é bom para você, mas precisa mesmo é sair da zona de conforto. A luta é contra você mesmo, encarar os adversários é aprendizado, sem vergonha de perder, sem orgulho de ganhar, tudo isso consegui através da experiência de luta, e voltei para ver os taolus, e desenvolver os vídeos de aplicação para as pessoas, para os meus colegas, enxergarem também esses movimentos dentro do tradicional, e também como uma forma de incentivar e renovar o kung fu.


Para as pessoas verem os métodos de kung fu com mais clareza, os movimentos de kungfu sao inúmeros e pouco claros, através da luta tentamos clarear e tirar o véu para enxergar a função dos golpes, para mostrar o real objetivo.

Pra vencer uma luta não importa o estilo que você treina, seu ataques e defesas tem que ser objetivos, você quer vencer o mais rápido e simples possível. Com todos buscando o mesmo objetivo é inexorável você chegar em formas e movimentos parecidos, eu acredito que todas artes marciais tem essa função de vencer a luta e neutralizar o oponente, e como tem o mesmo objetivo todos os movimentos se direcionam para o mesmo ponto.

Você também pratica bastante qiqong, como isso te ajudou ?

Eu treinava muito qiqong no meu começo no kung fu, fazia 6x por dia no começo. E foi muito bom porque eu estava ruim de saúde e o qiqong me fortaleceu e me deu confiança, e ate hoje pratico, passo para os meus alunos e faço com eles.

Sempre falo para os amigos e alunos que treinar qiqong é muito bom, sempre encerramos uma aula com respiração, sem exceção.

Professor Ye ministrando uma aula de Qiqong

Como você adaptou o Shaolin do Norte lutando Sanda ?

Sanda e shaolin é muito parecido, ambos usam socos chutes e quedas. A filosofia é a mesma longe chute, perto soca, mais perto derruba, mas como shaolin foi idealizado como auto defesa, shaolin tem mais finalizações que buscam acabar com a luta mais rápido, sanda como tem a regra
e você busca o ponto, jogar para fora do ringue etc… como sanda é mais esportivo e tem mais estrategia, de como buscar o ponto, a dinâmica de uma luta é muito diferente. Mas as técnicas são muito similares.

O tradicional exige muita potencia no golpe, e os estilos internos, buscam muito a intensidade do golpe, no Sanda você busca o ponto, e nocautear apenas quando a situação favorecer, mas como sempre treinei com enfase na potencia do golpe, senti que dentro de uma luta, os meus socos, principalmente meu direto, causava muito efeito nos adversários, cheguei a nocautear duas vezes pessoas só com o direto, por causa do xing yi e outros estilos de potencia que treinei. Isso me fez me sentir muito diferente dos outros atletas de sanda.

Em vermelho

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Não importa o estilo ou modalidade de luta, tudo é complementar, sempre tem a acrescentar, sempre tem o que aprender com os outros, é bom conhecer e observar as partes boas de todas as modalidades e estilos pois todos tem a acrescentar, e só assim conseguimos evoluir.

sempre teste e sempre prove seu conhecimento, coloca pra testar, porque só assim você descobre o que é bom e o que não é bom.

Aprendizado com o outros estilos e testar sua habilidade.

Não guarde sua habilidade, não guarde teoria e aplique seu conhecimento, assim você vai ficar cada vez mais leve pois você não carrega mais o conhecimento com você. Você se torna o próprio conhecimento.

Professor Ye Xin

Warner Lopes is a Northern Shaolin teacher, south american traditional kungfu champion and member of Brazil National Team. He also studies Xinhui's Choy Lee Fut under Sifu Marcelo Alexandrino