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Apontamentos Históricos – Xinhui Choy Lee Fut

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Baseados nas pesquisas de mestre Chan Jeong Git e no relato de mestre Wong Zen Yem.
Por Marcelo A. C. Santos. Publicado originalmente no site choyleefut.com.br

Introdução

O presente estudo é apresentado ao público com o objetivo de colmatar as lacunas existentes nos escritos ocidentais que, de modo geral, ignoram por completo alguns aspectos relevantes do percurso histórico da arte marcial Choy Lee Fut e de seus protagonistas na localidade onde nasceu – o distrito de San Wui, na província de Cantão, sul da China.

Pretendemos lançar luz sobre o desenrolar de fatos que marcaram a existência da modalidade desde um ponto de vista interno, ou seja, segundo os registros encontrados no seio da comunidade marcial onde ela se originou e ainda é preservada e desenvolvida graças à dedicação daqueles que, através de tempos gloriosos e momentos tenebrosos, se comprometeram a protegê-la. Com isto, especialmente os praticantes conhecerão outra dimensão, que agrega cultura, história e princípios à já consabida eficiência do Choy Lee Fut em combate.

Coragem, tenacidade, persistência, dedicação, respeito e heroísmo são valores que orientaram a vida das pessoas referidas nas linhas abaixo e que merecem ser ressaltados, a fim de que possam inspirar os estudantes atuais e futuros de nossa arte marcial. De outra parte, uma história que abriga monges, sociedades secretas, revoluções, exílio, momentos de quase desesperança e uma grande virada por cima há de ser levada às novas gerações, para que possam carregar em seus espíritos o orgulho e a alegria de pertencerem a uma linhagem singular, que transcende o tempo e desconhece fronteiras.

Este escrito está assentado sobre as pesquisas históricas conduzidas por décadas pelo atual presidente da Associação Pugilística Ancestral de Choy Lee Fut de San Wui, mestre Chan Jeong Git, e nos relatos de seu porta-voz no mundo ocidental,mestre Wong Zen Yem – respectivamente, nossos Sigung (“avô”) e Sifu (“pai”). Não se trata exatamente de um trabalho acadêmico; logo, algumas fontes de consulta escritas serão mencionadas no final, sem remissão no corpo do texto.

Sempre que informações, confirmações e correções se fizeram necessárias, recorremos a nosso mestre, Wong Zen Yem, conterrâneo do Fundador Chan Heung e testemunha-chave da história do Choy Lee Fut nos últimos trinta e poucos anos. Em todas as ocasiões, Sifu mostrou-se absolutamente solícito e genuinamente interessado em nosso trabalho. A ele expressamos, pois, nosso mais caloroso agradecimento e nossa imensa admiração, com o registro de que sua generosidade foi o combustível que nos manteve acesa a motivação.

Uma última observação, antes de passarmos aos trechos de maior interesse do leitor: o termo “ancestral” é aqui utilizado para sinalizar que nosso Choy Lee Fut é fruto de uma transmissão linear que (1) remonta ao Fundador Chan Heung e (2) tem como base espacial de desenvolvimento o mesmo local onde a arte foi concebida. Pretender que “o nosso estilo” não tenha sofrido alterações ao longo do tempo não só seria tolice, como atentaria contra a própria essência do Choy Lee Fut – que, desde sua gênese, foi caracterizado pela máxima do “absorver o que é útil; livrar-se do que é inútil”. Como toda e qualquer criação que queira seguir sobrevivendo ao teste do tempo, o Choy Lee Fut ancestral se adapta às exigências do momento e do local e, assim, mantém-se atual e eficiente. Como salienta Sigung Chan Jeung Git: “as artes marciais devem manter-se abertas e inclusivas; precisam de constante aperfeiçoamento e inovação, para que se adaptem às exigências dos novos tempos. No passado, o foco dos praticantes era a defesa de si próprio, de sua comunidade e do país. Atualmente, se preocupam mais com a boa forma e com a saúde. O Choy Lee Fut é fruto de esforços inclusivos e, portanto, pode sempre incorporar elementos de modernidade e inovação”. E é disso que tratamos nas linhas abaixo.

Raízes

Choy Lee Fut (Cailifo – 蔡李佛) é uma arte marcial codificada em 1836 na vila de King Mui (Jingmei – 京梅), localizada no bairro Jik Ngai Mun (Yamen -即崖门) do distrito de San Wui (Xinhui – 新会), província de Cantão (Gwongdung, Guandong – 廣東). Seu criador, Chan Heung (Chen Xiang – 陈享), uniu o que identificou de melhor em três estilos pugilísticos, mesclando-os em uma dinâmica e eficiente modalidade combativa. Naquele período, a China se encontrava sob domínio manchu, e sua porção meridional abrigava fugitivos, lutadores e guerreiros de todas as regiões, que para lá rumavam a fim de escapar de perseguições políticas, de sentenças de morte e, não raro, com o intuito de estabelecer focos de resistência ao governo instaurado. A prática das artes marciais, embora proibida pelo governo central, ainda encontrava terreno relativamente seguro no sul, especialmente em Cantão e nas províncias vizinhas.

Nascido em 23 de agosto de 1806, Chan Heung foi iniciado aos sete anos de idade na prática do Punho de Hung (洪拳) ou Punho Budista de Hung (洪佛拳), um estilo derivado do templo Siu Lam (Shaolin – 少林) de Fukien (Fujian – 福建), sul da China. Seu tio, Chan Yuen Wu (陈远護), foi seu primeiro professor. Ainda muito jovem, Chan Heung praticou também sob a orientação do mestre Lee Yau San (李友山), de quem aprendeu técnicas típicas do norte e a essência do estilo sulista do lendário abade Ji Sim (Zhi Shan – 至善).


Em 1922, Lee Yau San encaminhou Chan Heung ao monte sagrado Lo Fau (Luofu Shan – 罗浮山) para aperfeiçoar sua técnica com Choy Fook (蔡福), monge conhecido por ostentar profundas cicatrizes de batalha na cabeça e famoso por dominar as técnicas provindas do antigo monastério Siu Lam de Honan (Henan – 河南), norte da China.


Após 10 anos de treinamento marcial e mais dois de imersão no Caminho do Buda, na medicina tradicional e na misteriosa prática dos “seis encantamentos mágicos”, Choy Fook deu o treinamento de Chan Heung por completo. Ao despedirem-se, entregou-lhe o seguinte poema, por meio do qual o encarregava de uma grandiosa missão:

龍虎風雲會, O dragão e o tigre se encontraram na tempestade
徒兒好自爲, Meu discípulo, cuide-se bem
重光少林術, Para fazer rebrilhar a arte de Siu Lam
世代毋相遺. A fim de que as futuras gerações não a esqueçam.

Por insistência do líder de King Mui, Chan Heung retornou para sua vila natal naquele mesmo ano de 1834. Enquanto descia o monte Lo Fau, diz-se que ajudou cerca de 100 aldeões encurralados por bandidos, o que lhe rendeu seu primeiro reconhecimento por um feito heroico.

De volta a San Wui, dedicou-se por dois anos à prática da medicina tradicional e à sistematização de sua própria arte marcial. Findo esse período, a denominou “Choy Lee Fut” (蔡李佛) em homenagem às raízes de seu aprendizado: o monge Choy Fook, o mestre Lee Yau San e, como justa remissão ao mosteiro Siu Lam, a Buda (em cantonês: Fut). É fácil extrair daí que a expressão “Choy Lee Fut” abarca uma valorosa orientação: “honre sempre os ensinamentos de seus professores; nunca se esqueça da fonte da sua arte”. Ainda hoje, os três cumprimentos que marcam a abertura das rotinas ou formas praticadas em nossa linha de sucessão simbolizam claramente esse comando ético.

Assim, em 1836, Chan Heung finalmente estabeleceu o Hung Sing Gwun (Hong Shen Gwan – 洪圣馆), ou Salão do Grande Sábio, sua escola da arte marcial Choy Lee Fut, no Templo Ancestral Yuen Fuk Chan (Yuan Fu Chen Gong Si – 缘福陈公祠), situado na vila de King Mui.

No mesmo período, Chan Heung estabeleceu sua clínica médica, da qual tirava recursos suficientes para viver com conforto. Dessa forma, podia ensinar o Choy Lee Fut por uma quantia irrisória, prática raríssima na sociedade daqueles anos. Mesmo na atualidade, o ensino do Choy Lee Fut na escola do Fundador permanece fiel a essaorientação não consumerista: o que transmitimos não é um objeto de comércio, mas uma herança marcial e um legado cultural.

A nova arte marcial impressionava pela combinação harmônica dos ataques contínuos, das estratégias variáveis de curta, média e longa distância e dos chutes incomuns do método de Choy Fook; das pontes longas, dos ataques pendulares e da postura lateralizada do estilo de Lee Yau San; e das sequências explosivas de ataques com as palmas alternadas, das pontes curtas e médias e das manipulações das articulações da técnica de seu tio Chan Yuen Wu. Não demorou muito até que Chan Heung atraísse um sem-número de interessados e formasse seu primeiro grupo de discípulos – os “18 Lohan” (Sup Baat Lohon, Shiba Luohan – 十八羅漢). Logo, a eficiência do Choy Lee Fut ganhou notoriedade, e o Hung Sing Kwoon rapidamente ganhou filiais em outras cidades da província de Cantão: Chan Din-Fun (Chen Dianhuan – 陳典桓) instaurou o primeiro Hung Sing Kwoon na cidade de Futsan (Foshan – 佛山), enquanto outras escolas foram distribuídas por localidades cantonesas diversas por Chan Din-Yao (陳典尤), Chan Dai-Yup (陳大揖); Chan Din-Sing (陳典承); Chan Mau-Jong (陳謀莊); Chan Din-Bong (陳典邦); Chan Din-Wai (陳典惠); Chan Din-Jen (陳典珍); Chan Sun-Dong (陳孫棟); Chan Din-Dak (陳典德); Chan Dai-Wai (陳大威); Chan Sing-Hin (陳承顯); Chan Yin-Yu (陳燕瑜), Chan Dai-Sing (陳大成), Chan Din-Seng (陳典勝), Chan Mau-Wing (陳謀榮) e Chan Din-Gung (陳典拱). Na província vizinha de Gwongsai (Guanxi -廣西), o estabelecimento do Choy Lee Fut ficou a cargo do primeiro discípulo de Chan Heung, Lung Ji Choi (Long Zicai -龍子才).

Atividades revolucionárias:

Desde a conquista da China pelos manchus, com a derrubada da Dinastia Ming (明) e a instauração da Dinastia Ching (Qing -清) em 1644, o sul do país se havia tornado um abrigo de revolucionários que visavam à derrubada do novo governo. Com o passar dos anos, notícias como a da queda do heroico Monastério Siu Lam de Honan, incendiado por tropas Ching, alimentavam lendas que inspiravam a fundação de diferentes sociedades secretas que, para além de agir silenciosamente no campo político e social, proporcionavam a seus membros intenso treinamento na arte da guerra.

Dentre essas organizações, despontou a Hung Mun (Hong Men – 洪門), cujo ritual de iniciação continha a narrativa da traição de Siu Lam pelo monge proscrito A’Tsat – que, orientando o cerco do mosteiro e facilitando a entrada do exército imperial, sacrificara impiedosamente os seus pares. Contudo, o Buda do Dharma, testemunhando o ato de iniquidade, transformara nuvens em uma ponte pela qual alguns monges conseguiram escapar para o exterior do monastério. Já do lado de fora, viram A’Tsat ajudando os soldados e decidiram vingar-se, partindo, embora desarmados, para cima da tropa. Disso resultara que apenas cinco monges conseguiram seguir pela ponte mágica até a praia, onde foram acolhidos porpescadores. Na manhã seguinte, os soldados imperiais descobriram que havia sobreviventes e lançaram-se atrás dos cinco, encurralando-os à beira do mar. Ocorre que os gênios Chu Kwang e Chu Kwai vieram em socorro dos monges e criaram uma nova ponte de aço e bronze, pela qual eles escaparam em segurança até o Templo de Kao Chai. Lá, se depararam com um incensário de porcelana, no qual estava gravado “Derrubar [o governo] Ching e restaurar [a dinastia] Ming” (cantonês: Faan Ching Fuk Ming; mandarim: Fan Qing Fu Ming – 反清復明). Prosseguindo em sua viagem, os cinco monges, agora conhecidos como os Cinco Fundadores, juntaram-se a Chan Kan Nam, guerreiro de grande habilidade e detentor de impressionantes poderes mágicos, ao qual nomearam como primeiro Mestre de Loja da Sociedade Hung Mun. Com ele, caminharam até o local conhecido como Pavilhão da Flor Vermelha – que simbolizava o útero e, portanto, o renascimento do iniciado – e lá, pingando gotas de sangue dos dedos em uma taça de vinho, celebraram um pacto de irmandade contra as forças do império Ching, prometendo treinar soldados, comprar cavalos e reunir os bravos do império sob sua bandeira.

A forte alegoria iniciática envolvendo o monastério Siu Lam e o mistério que circundava as práticas e a composição da sociedade Hung Mun também inspiraram a criação de modalidades marciais e seus respectivos códigos de conduta, treinamento e transmissão. Não é incomum, até hoje, encontrarmos estilos pugilísticos que carreguem em sua denominação ideogramas que remetam à palavra “Fut” (Buda, em alusão ao mosteiro) ou ao fonema “Hung” – cujas variações de escrita, no mais das vezes, ocultam mensagens de um passado de bravura.

Muito embora não haja documentos que atestem a participação de Chan Heung na sociedade Hung Mun – como, de resto, seria de se esperar de uma organização secreta –, pode-se pensar em correlações com a denominação do estilo ensinado por seu tio, com o título de sua escola e com o poema deixado por Choy Fook. A propósito, é dito que Hung Sing seria uma abreviação cifrada do slogan revolucionário “Hung Ying Ji Sing, Ying Hung Wing Sing” (洪英至聖, 英雄永勝), que significava “os heróis de Hung são sábios; os grandes heróis sempre vencem”. Ademais, o próprio cumprimento de nossa antiga escola de Choy Lee Fut encerra um código que, decifrado, revela a antiga mensagem de “derrubar Ching, restaurar Ming”: primeiro, a mão esquerda, aberta, é sobreposta à direita, fechada. Em seguida, a mão direita, ainda fechada, é empurrada para frente da esquerda, que permanece tocando suas costas. Faz-se então uma respeitosa inclinação de tronco. Ora, a mão direita é o sol (日); a esquerda, a lua (月). Lua e sol compõem o caractere “Ming” (明) – que também significa “claro”, “evidente”. A mão esquerda sobre a direita significa que o sol se encontra eclipsado, encoberto – uma alusão aos tempos de trevas do governo Ching. Quando a mão direita se evidencia a frente da esquerda, significa que o sol volta a brilhar, e o céu está claro novamente. Em outras palavras: a tão sonhada restauração da dinastia Ming!

Independentemente de sua efetiva filiação a sociedades secretas, o fato é que o envolvimento de Chan Heung com atividades revolucionárias é bem documentado.

Entre 1839, eclodiu a primeira Guerra do Ópio, que se estendeu pela província de Cantão até 1842. Convocado pelo ministro imperial Lam Jak Chui (Lin Zexu – 林則徐), Chan Heung atuou no treinamento do grupamento conhecido como “os bravos da água”, que viria a enfrentar a poderosa armada britânica.

As batalhas perduraram até que a China sucumbiu e submeteu-se às exigências inglesas por meio do Tratado de Nanquim. Após a rendição chinesa, Chan Heung retornou a San Wui, frustrado por ter testemunhado os efeitos daninhos da corrupção dos governos locais e central.

Nessa época, o Choy Lee Fut se fortaleu na capital da província, Guongzou (Guangzhou – 廣州). E, graças ao grande quantitativo de homens treinados por Chan Heung durante a guerra, mais de 40 escolas de Choy Lee Fut foram estabelecidas em diferentes localidades do sul da China, tornando-o um dos estilos pugilísticos mais praticados da região.

Em poucos anos, a crescente insatisfação com o governo Ching daria força popular à chamada Rebelião de Taiping (太平), que resultou na instauração do Império do Reino da Grande Paz Celestial, o qual se manteve de pé de 1851 a 1864.

Os seguidores de Chan Heung, especialmente os que se encontravam em Gwongsai sob a liderança de Lung Ji Choi, deram suporte ao exército do Reino da Grande Paz Celestial, marcando presença nas batalhas lideradas por Fung Wan San (Feng Yunshan – 馮雲山) e naquelas que seguiram à sua morte prematura. O próprio Chan Heung empunhou a bandeira do reinado revolucionário em Gong Mun (Jiangmen – 江门) ao lado de seu primo Chan Kung-Nin (Chen Songnian – 陳松年), conselheiro do General Sek Dahoi (Shi Dakai – 石達開). Com o avanço das tropas Ching e a captura de Chan Kung-Nin, Chan Heung escapou para Zang Sing (Zengcheng – 增城), distrito de Guangzhou, de onde conseguiu fugir para Hong Kong. De lá, rumou para o sudeste asiático e eventualmente chegou aos Estados Unidos.

No Choy Lee Fut da escola ancestral, a forma ou rotina Ping Kuen (平拳) rememora a participação de Chan Heung e de seus seguidores nos combates daquele tempo. Também os “cinco sons”, ainda vigentes em nossa escola, remontam aos dias de batalha: para que pudessem se reconhecer mutuamente, praticantes de Choy Lee Fut vibravam “Wah” ao desferir uma “garra de tigre”, “Dik” quando chutavam, “Ye” ao socar ou desferir golpes com a palma aberta, “Ha” quando aplicavam o “chap choi” e “Hok” ao utilizar o punho na forma de bico.

Em 1864, Chan Heung seguiu para a Califórnia, passando a ensinar artes marciais a chineses que residiam em São Francisco. Quatro anos mais tarde, retornou a Hong Kong.

Durante os anos de exílio, Chan Heung não só permaneceu ensinando, como aperfeiçoou o Choy Lee Fut. Por diversas ocasiões, teve oportunidade de proteger seus compatriotas no exterior – como no episódio em que enfrentou o capataz de Nanyang que acuava os trabalhadores chineses, naquele em que derrotou o “Hércules Russo” em Hong Kong e no período em que ensinou membros da comunidade de São Francisco a se defenderem de seus opressores.

A diáspora do Choy Lee Fut e o obscurecimento da escola ancestral

Dada a perda de contato entre Chan Heung e os seguidores que permaneceram na China continental, o Choy Lee Fut se ramificou e assumiu características diferentes em cada localidade em que era praticado. Em algumas escolas, essa arte marcial desenvolveu-se por si só, assumindo novos contornos conforme a interpretação, a habilidade e as preferências de cada treinador. Em outras, fundiu-se com diferentes modalidades, perdendo alguns de seus fundamentos em troca da incorporação de novos elementos, porém preservando determinadas características de identidade e coerência em relação aos ensinamentos do Fundador.

É dito que a escola de Fatsan , fundada por Chan Din-Fun, recebeu influências do estilo Fut Gar (Fujia – 佛家) através de Jeung Yim. Segundo a tradição oral, esse talentoso discípulo de Chan Heung também teria sido instruído por um misterioso membro da sociedade Hung Mun conhecido como “Monge Grama Verde” (Ching Cho, Qingcao – 青草). Durante o início das atividades revolucionárias, os caracteres dessa escola foram deliberadamente alterados para que passassem a significar “Ganso Vitorioso” (鴻勝). Enquanto isso, Chan Koon-Pak, filho de Chan Heung, alterava os caracteres da escola original de King Mui para “雄勝“ – “Vitória do Forte”. A fonética dos caracteres, porém, permaneceu a mesma: “Hung Sing”.

Da escola de Fatsan, saiu Tam Sam (Tan San – 譚三), outro renomado expoente do Choy Lee Fut. Tam Sam foi sabidamente influenciado pelo estilo Shaolin do Norte (Buk Siu Lam, Bei Shaolin – 北少林), e sua modalidade de Choy Lee Fut é atualmente conhecida como Buk Sing (Beisheng – 北勝), abreviação do nome da escola por ele fundada na localidade de Siu Buk (Shaobei – 少北): Siu Buk Hung Sing Kwoon.

Em Gong Mun (Jiangmen), Chan Cheong Mo (Chen Chanmao – 陈长毛), que estudara Choy Lee Fut com Chan Heung desde a infância, fundou o Salão Hung Sing dos Quatro Condados, contando com a ajuda preciosa de Chan On-Pak (陈安伯) e Chan Koon-Pak (陈官伯), filhos do Fundador. Chan Cheong Mo teve uma intensa experiência militar na divisa ocidental de Cantão. Com a dispersão de seu grupamento, retornou para Gong Mun com um grupo de vinte discípulos e lá praticou medicina e ensinou o Choy Lee Fut até sua morte em 1953, aos 91 anos de idade. Atualmente, o patriarca dessa linha é Wong Gong (Huang Jiang – 黄江). Por haver residido em Hong Kong por mais de 70 anos, Wong Gong promoveu uma série de adaptações nos métodos de sua escola, tendo por bem rebatizá-la como “Jiangmen Hung Sing Choy Lee Fut”. Outras escolas beberam de diferentes fontes e sofreram as consequentes adaptações.

De volta a sua cidade natal em 1869, o próprio Chan Heung trouxe novos ares ao Choy Lee Fut, adicionando traços técnicos de modalidades com as quais teve contato em suas viagens, como alguns estilos de Kung Fu, artes marciais do sul da Ásia e, até mesmo, de boxe inglês, por ele muito apreciado.

Chan Heung dedicou-se até o fim de sua vida, em 1875, à compilação sistemática de sua arte marcial. Por ser ele o fundador, chamamos a sua linhagem direta de transmissão a partir de San Wui de “Choy Lee Fut Ancestral”.

Na linha de transmissão estritamente familiar, Chan Heung foi sucedido por seus filhos, Chan On-Pak (陈安伯) e Chan Koon-Pak (陈官伯) e sua filha Chan Bo Gu (陈宝姑). Chan Koon-Pak transmitiu o Choy Lee Fut para Chan Man Bun (陈文彬) e Chan Yu Chi (陈耀墀). Chan Yu Chi, para seus filhos Chan Sun Chiu (陈燊樵) e Chan Wan Hon (陈云汉) e sua filha Chan Kit Fong (陈洁芳). Chan Wan Hon transmitiu o Choy Lee Fut para seus filhos Chan Wing Faat (Chen Yong Fa – 陈永发), Chan Wing Sing (陈永成) e Chan Wing Siu (陈永兆). Chan Sun Chiu transmitiu a arte a seus filhos Chan Wing Keung (陈永强) e Chan Wing Gin (陈永健). Chan Kit Fong transmitiu a arte a Ng Fu Hang (吴富亨), seu único filho.

Contratempos agitaram a província de Cantão e favoreceram o espalhamento dos iniciados em nossa arte marcial durante o fracassado levante de 1895 e a exitosa Revolução de 1911 – que finalmente derrubou a dinastia Ching e resultou na fundação da República da China em 1912. As duas rebeliões testemunharam a participação ativa de praticantes de Choy Lee Fut, tais como Chan Chiu Man (陳紹聞), também conhecido como Chan Siu Bak (陳少白), e Jeng Si-Leung (鄭士良), ambos discípulos de Chan On-Pak e membros das sociedades secretas Hing Zung Wui (Xingzhonghui – 興中會) e Tung Mang Wui (Tongmeihui – 同盟会). É interessante salientar que Chan Chiu Man, outrora integrante do famoso grupo dos “Quatro Bandidos” ao lado de Sun Yat-Sen em Hong Kong, viria a atuar como ministro do exterior logo após a declaração de independência de Cantão, em 1911, e como conselheiro presidencial em 1921.

Momentos turbulentos e de grande dispersão também foram enfrentados no curso das duas Grandes Guerras Mundiais (1914-1918 e 1939-1945) e quando da instauração do regime comunista (1949). Mais: durante a Revolução Cultural (1966-1976), a prática aberta das antigas artes marciais também foi alvo da intensa persecução que assolou os elementos considerados tradicionais na sociedade chinesa.Um quê de segurança havia, apenas, para o ensino familiar e a portas fechadas, especialmente nos vilarejos. Por essa razão, o Salão Ancestral praticamente caiu no esquecimento do público e recebeu pouquíssimos alunos do início da década de 1950 até o final da década de 1970.

No mesmo período, porém, o Choy Lee Fut tornou-se amplamente praticado em Hong Kong, em países do sul asiático e no ocidente, para onde migraram inúmeros mestres em fuga das restrições do regime comunista.

Em 1972, Chan Kit Fong, filha de Chan Yu Chi e bisneta de Chan Heung, foi instrumental na fundação da “Associação Memorial de Chan Heung”, em Hong Kong. Na ocasião, Wu Wan Cheuk (Hu Yunxiao – 胡云綽) foi eleito o primeiro presidente da associação, e Chan Kit Fong, sua conselheira vitalícia. Como veremos adiante, a Associação Memorial viria a exercer um papel fundamental para a revitalização do Choy Lee Fut em San Wui.

É curioso notar que, com a abertura político-econômica da China, a partir de 1976, as transformações sociais daí advindas trouxeram novos elementos complicadores para o reaquecimento da prática do Choy Lee Fut em San Wui: a jornada de trabalho da população em geral passou a exceder de 12 horas. Alheios à febre do Kung Fu, que se alastrava no exterior graças ao sucesso dos filmes de Hong Kong, os jovens locais mostravam-se cada vez mais interessados em atividades capazes de elevar os seus rendimentos e já não estavam dispostos a dedicar-se às artes marciais tal como exigido pelo antigo sistema de ensino, assentado sobre estritos parâmetros disciplinares e composto por superpostas camadas de austeridade, incompatíveis com o imediatismo e a agitação dos novos tempos. Com isso, os grupamentos de praticantes foram encolhendo e envelhecendo. O destino, porém, ainda reservava uma espetacular reviravolta para o Choy Lee Fut ancestral. Afinal, tal como determinara Chan Heung no final de sua vida: “todos aqueles que se propuserem a promover as artes marciais e a disseminar o Choy Lee Fut através das gerações não deverão medir esforços”.

Sigung Chan Jeung Git e o reflorescimento do Choy Lee Fut Ancestral

Chan Jeung Git (Chen Zhongjie – 陈忠杰), nosso Sigung (“avô-professor”), nasceu na vila de King Mui, berço do Choy Lee Fut, em 1963. Aos seis anos de idade, já se deleitava ao ouvir as antigas lendas e histórias sobre os feitos heroicos Chan Heung e de seus seguidores, contadas ao cair do sol pelos praticantes mais idosos.

Dois anos mais tarde, ouvir já era pouco para ele. Portanto, aos oito anos, passou a tomar aulas no Salão Ancestral, em especial com Chan Fu Jin (Chen Fuyan – 陈富燕) e Chan Wa Chaan (Chen Huacan -陈华灿), ambos discípulos de Chan Yu Chi, neto do Fundador.

Durante o ensino médio, começou a efetuar detalhadas pesquisas sobre a história, a cultura e os métodos pugilísticos do Choy Lee Fut, sobre os quais debatia todas as noites com seus mentores.

Como visto, naquele tempo, poucos jovens apareciam para praticar na vila de King Mui. O Salão Ancestral contava com pouco mais de 20 alunos, e, por desconhecer sua rica herança cultural, a população de San Wui não se importava com o fato de o Choy Lee Fut ter nascido ali. Preocupada com a situação, no final de 1979 a Associação Memorial de Chan Heung enviou uma providencial ajuda financeira para King Mui. Isso possibilitou a instalação de um projeto capaz de atrair cerca de uma centena de jovens, com os quais Chan Jeung Git praticava à exaustão. Nesse período, destacou-se não apenas por sua habilidade e pelo estudo minucioso dos manuais deixados pelos mestres do passado, mas também por sua capacidade incomum de planejamento e de organização das atividades do local.

Atentos às características de Chan Jeong Git, os Mestres Chan Fu Jin e Chan Wa Chaan lhe transmitiram as técnicas mais avançadas e os princípios mais profundos do Choy Lee Fut, não tardando para que ele se tornasse um jovem instrutor do legendário Salão Ancestral.

Em 1984, Chan Fu Jin encarregou Sigung Chan Jeong Git da liderança do Festival de Primavera de San Wui. O evento foi um grande sucesso: mais de duzentas pessoas participaram das competições de artes marciais e de dança do leão, na maior atividade organizada pelo Salão Ancestral desde a fundação República Popular da China. No mesmo ano, contudo, Chen Jeong Git foi investido no cargo de inspetor de polícia, e os múltiplos afazeres da nova carreira pública passaram a ocupar grande parte de seu tempo.

Em 1986, algumas melhorias foram efetuadas no Salão Ancestral com o auxílio de capital estrangeiro, e o local foi reaberto ao público sob a denominação King Mui Hung Sing Sijo Kwoon (京梅雄勝始祖館), ou Salão Ancestral da Vitória Heroica de King Mui. Na ocasião, Chan Wan Hon, bisneto de Chan Heung, e Chan Fu Jin assumiram o ensino como instrutores-chefes.

Uma década mais tarde, porém, a situação já estava crítica novamente: os alunos das escolas primárias haviam sido proibidos de envolver-se com artes marciais. Os praticantes mais novos eram poucos, pois a maioria dos jovens trabalhava fora, e os antigos já beiravam os 80 anos de idade. O Salão Ancestral passou a ser utilizado para outras finalidades, e Chen Jeung Git, sobrecarregado com o serviço público, observava tudo com preocupação.

Em 1998, o mestre Chan Fu Jin veio a falecer, já octogenário. Entre seus últimos desejos, estava o de que “a próxima geração não deixasse a arte marcial Choy Lee Fut se perder” (“不要讓蔡李佛拳藝在你們這一輩人後失傳”). Então, mestre Chan Wa Chaan apelou a Chan Jeong Git que se preparasse para empunhar a bandeira do Salão Ancestral e impedir a quebra da corrente de transmissão do Choy Lee Fut ancestral em San Wui.

No início do ano seguinte, 1999, mestre Chan Wa Chaan também faleceu, aos 86 anos de idade, e Chan Jeung Git sentiu o peso da responsabilidade recair sobre seus ombros. Reunido com outros vinte e cinco praticantes – entre eles, nosso Sifu (“pai-professor”) Wong Zen Yem (Huang Zhenqin – 黄振钦) –, ele assumiu o encargo de preservar e difundir a cultura e o método pugilístico do Choy Lee Fut de San Wui, cumprindo assim o antigo mandamento de honrar seus mestres e não esquecer suas raízes.

Para que se alcançasse o objetivo traçado na mencionada reunião, os participantes decidiram criar uma associação sem fins lucrativos capaz de acomodar os mais diversos entusiastas das artes marciais. Portanto, no dia 04 de maio de 1999, veio à luz a Associação de Choy Lee Fut de San Wui em Memória do Fundador (新會蔡李佛雄勝始祖紀念會). Na oportunidade, Sigung Chan Jeung Git foi unanimemente eleito como primeiro presidente, e Sifu Wong Zen Yem, primeiro treinador. Os fundamentos de uma nova era estavam oficialmente lançados.

Por ter pouco tempo disponível, Chan Jeung Git adotou a estratégia de capacitar alguns jovens discípulos a transmitir o Choy Lee Fut na qualidade de instrutores. Em seguida, alugou uma quadra de esportes anexa ao Estádio de Buk Mun (Beimen Tiuchang – 北门体育场) para que esses mesmos discípulos pudessem começar a ensinar a arte marcial de Chan Heung com maior visibilidade. Ademais, com o auxílio de sua rede de relacionamentos, obteve novos fundos para restaurar por completo o Salão Ancestral, provindos especialmente da secretaria de esportes do distrito de San Wui e de generosos filantropos da região.

Já no verão de 2000, a recém-inaugurada associação organizou um treinamento no período de férias escolares no subdistrito de Wui Sing (Huicheng – 会城), área mais populosa de San Wui, sob o comando do mestre Wong Zen Yem e de dois professores auxiliares, Lou Daat Man (魯達民) e Lun Jeung Gwing (倫長烓). Dado o interesse despertado pela excelente divulgação, a organização precisou limitar o número de participantes aos sessenta primeiros inscritos. O sucesso desse evento inspirou a realização de outras atividades em locais públicos, fazendo com que o Choy Lee Fut voltasse a ser reconhecido na região.

Durante esse período, um grupo formado por Chan Jeung Git, Wong Zen Yem, Chan Sek Jeung, Chan Bing Yu, Chan Wai Woh, Lee Wing Jau (陳忠傑, 黃振欽, 陳錫章, 陳炳耀, 陳偉和, 利榮就) retornava constantemente a King Mui, onde realizava um trabalho profundo e meticuloso. Desse modo, ganharam o apoio dos moradores da vila e não só convenceram o comitê administrativo a mudar-se do antigo sítio do Templo AncestralYuen Fuk Chan, como obtiveram uma nova doação da comunidade local para ajudar na restauração do Salão Ancestral.

Também naquele ano, começaram a ser planejadas atividades conjuntas de intercâmbio cultural e marcial na vila de King Mui com o tataraneto de Chan Heung, mestre Chan Wing Faat (Chen Yong Fa), residente na Austrália desde 1983. Como resultado, pela primeira vez na história, noventa e seis praticantes de catorze países estrangeiros chegaram a San Wui ao mesmo tempo, para participar de dez dias de treinamento sob a orientação do Mestre Chan Wing Faat.

No dia 09 de dezembro de 2001, já completamente restaurado, o antigo salão foi reaberto. Como sinal de reverência ao Grande Mestre Chan Heung e de respeito à gloriosa história do Choy Lee Fut, a instalação recobrou sua antiga denominação, “Salão Ancestral do Grande Sábio” (“始祖洪圣始祖馆”). O evento reuniu mais de 1.000 pessoas e foi amplamente coberto pela imprensa escrita e televisiva.

Um ano mais tarde, outros grandes eventos foram promovidos pela Associação: o segundo seminário internacional de Choy Lee Fut, a festa de aniversário da reconstrução do Salão Ancestral, um seminário de desenvolvimento e aperfeiçoamento e a Conferência Internacional de Intercâmbio e Observação da Arte Marcial Choy Lee Fut. Além de autoridades locais e representantes de Hong Kong, Macau, Foshan, Gwongjau e outras cidades, praticantes de dezesseis países compareceram às atividades. Ao todo, mais de 2.000 artistas marciais marcaram presença, e mais de 5.000 cópias de um jornal com a suma das pesquisas de Chan Jeung Git foram distribuídos.

Em janeiro de 2003, foi aprovado o registro da Associação, que teve sua denominação alterada para “Associação Pugilística Ancestral de Choy Lee Fut de San Wui” (新會蔡李佛始祖拳會). Sua governança foi confiada a um comitê de nove pessoas, com Sigung Chan Jeung Git no cargo de presidente e Sifu Wong Zen Yem no de secretário-geral. Wong Gong Cheun (Huang Jiangchuan – 黃江川), primeiro professor de Wong Zen Yem, e sua mulher Fung Ji Hing (Feng Zhixing – 馮志興) também integraram o comitê. No mesmo ano, a Associação passou a competir em torneios de combate (Sanda – 散打), rotinas (Taolu – 套路) e Dança do Leão, enviando equipes treinadas por Fung Ji Hing para as cidades de Jue Hoi (Zhuhai – 珠海) e Gong Mun (Jiangmen), e por Wong Gong Cheun, Fung Ji Hing e Wong Zen Yem – que também competiu, sagrandose vencedor – para disputar os Jogos Nacionais da famosa escola Chin Woo, em Beijing. Os resultados foram mais do que excelentes: várias medalhas de ouro, prata e bronze foram conquistadas nos dois primeiros torneios, nos quais a equipe terminou no segundo lugar geral; em Beijing, para além de cinco medalhas de ouro e seis de prata, a Associação Ancestral também conquistou os prêmios de ética esportiva e de organização de maior destaque.

Outro evento impactante teve lugar em 25 de novembro de 2005, por ocasião do Festival de Turismo e Cultura de Gong Mun. Sob a direção técnica de Chen Jeung Git, Fung Ji Hing e Wong Zen Yem, mais de 100 jovens praticantes encenaram a participação dos antepassados nos períodos turbulentos de guerra e revolução. As táticas e o manejo das mais diferentes armas utilizadas no período da Guerra do Ópio, inclusive o Tridente dos Nove Dragões de Chan Heung, foram exibidos para um público mesmerizado. Em seguida, manobras com armamento da Revolta da Grande Paz Celestial foram realizadas enquanto a rotina Ping Kuen homenageava os bravos lutadores de Choy Lee Fut que cerraram fileiras no reino de Taiping. O espetáculo foi aplaudido de pé pelos organizadores e pelo público, logrando alcançar o objetivo de imprimir no espírito dos presentes a grandiosidade cultural e histórica do Choy Lee Fut.

Também são dignas de ser rememoradas as festividades de 200 anos de nascimento de Chan Heung e 170 anos de criação do Choy Lee Fut, de 07 a 09 dezembro de 2006. Fruto de preparativos iniciados em janeiro do mesmo ano, o evento reuniu cerca de 800 praticantes entre chineses e estrangeiros e novamente contou com a presença de autoridades e grande cobertura jornalística. No final do primeiro dia, um público de mais de 200 pessoas participaram da conferência “A cultura da arte marcial Choy Lee Fut”, apresentada por respeitados artistas marciais e professores de história e de literatura. Nos dois dias seguintes, um festival de dança do leão reuniu por volta de 500 atletas, e um campeonato de combate (Sanda) levou 52 competidores ao ginásio local. O encerramento do evento foi marcado por um enorme banquete oferecido pela administração do distrito de San Wui a todos os participantes.

Nos anos que se seguiram, outros grandes eventos e inúmeras atividades têm mantido intensamente viva a transmissão da arte marcial de Chan Heung, culminando no reconhecimento do Choy Lee Fut como Patrimônio Cultural Intangível da China no ano de 2008.

Digna de menção é, ainda, a participação de Sigung Chan Jeong Git como corroteirista e coreógrafo e de Sifu Wong Zen Yem como assistente técnico na produção do filme “Choy Lee Fut” (no Brasil, “Choy Lee Fut, a Velocidade da Luz”), lançado no mercado mundial no ano de 2011.

Mais recentemente, em setembro de 2019, um espetacular centro de treinamento para jovens foi inaugurado na vila de King Mui, com a presença de diversas autoridades e a participação de centenas de pessoas, entre praticantes e moradores.

À frente da Associação, Chan Jeung Git tem sido imensamente exitoso em atrair investimentos públicos e privados para a promoção do Choy Lee Fut em San Wui. Centralizada no Salão Ancestral, a Associação expandiu o perímetro de ensino do Choy Lee Fut, levando-o a escolas e a locais de treino mais espaçosos. Apresentaçõespúblicas, torneios e intercâmbios culturais vêm sendo incessantemente promovidos. Pela primeira vez, as técnicas, os princípios e a história do Choy Lee Fut Ancestral têm sido compilados, editados na forma de livros e distribuídos ao público. Cerca de um milhão de yuens foram investidos pela municipalidade para melhorar o acesso ao Salão Ancestral e outros quatro milhões e meio para revitalizar a área ao seu redor. A “Cultura do Choy Lee Fut” – termo cunhado por Sigung Chan Jeung Git – se estabeleceu como realidade local e expandiu-se a nível nacional, a ponto de ser hoje dito que “Há Taichi no norte e Choy Lee Fut no Sul” (北有太极,南有蔡李佛).

Sifu Wong Zen Yem e a expansão internacional da Associação Ancestral

Nascido em San Wui no ano de 1974, Mestre Wong Zen Yem (Huang Zhenqin – 黄振钦) estava destinado a atrair a atenção do Ocidente para o Choy Lee Fut da Escola Ancestral. Graças aos vídeos em que sua singular habilidade, sua impressionante velocidade, sua extrema precisão e sua inconfundível expressão corporal são demonstradas, olhos cada vez mais numerosos se têm voltado para a nossa arte marcial.

Aos 13 anos de idade, Sifu Wong Zen Yem começou a tomar aulas dos estilos Hung Gar e de Choy Lee Fut sob a tutela do mestre Wong Gong Cheun (黄江川; não confundir com o mestre Wong Gong 黄江, do ramo Jiangmen), no bairro de Woi Sing (会城).

Quase cinco anos mais tarde, com as bênçãos de seu primeiro professor, passou a treinar sob os olhos atentos de Sigung Chan Jeung Git no Salão Ancestral de King Mui.

Por volta de 1993, já comandava pequenas turmas que frequentavam o local e logo se tornou o braço direito de Chan Jeung Git, atuando direta e intensamente no planejamento e na execução das estratégias e intervenções que resultaram na fundação da Associação Ancestral e no reflorescimento do Choy Lee Fut em San Wui.

Com o sucesso dos esforços liderados por Chan Jeung Git e o vertiginoso incremento de interesse na prática do Choy Lee Fut, mestre Wong Zen Yem – alçado à condição de treinador-chefe – deixou seu emprego em um banco local em 2005, para dedicar-se integralmente ao ensino do crescente quantitativo de alunos que acorria ao Salão Ancestral, à base de apoio de Buk Mun e a outros centros de ensino. Atualmente, sete de seus estudantes chineses, tendo alcançado a maestria da arte, ministram aulas em San Wui.

Diante da plena consolidação do êxito obtido pela Associação em San Wui, Sifu Wong viu-se pronto para dar um passo emocionalmente difícil, mas corajosamente decidido: deixar sua terra natal para divulgar o método e a cultura do Choy Lee Futancestral no ocidente. Em setembro de 2007, portanto, rumou com sua família para os Estados Unidos, estabelecendo-se no bairro do Brooklyn, em Nova York.

A despeito de encontrar-se localizada em um dos maiores centros comerciais e financeiros do mundo, o ensino na sede americana da Associação está longe de ser orientado para o consumo. Em um espaço sem letreiros ou sinais exteriores, os alunos de mestre Wong não ostentam faixas coloridas ou símbolo equivalente. Em todas as sessões, os participantes, independentemente do nível de domínio da arte, primeiramente se alinham para praticar uma longa série de exercícios básicos e, assim, desenvolver os fundamentos que identificam o Choy Lee Fut ancestral.

“O mais importante é treinar Da Bok (打膊) e aprender a relaxar a parte superior do corpo. A força vem do quadril, os membros são como chicotes. Não tenha pressa, faça do jeito certo. Lembre-se de que a qualidade é o que importa; acumular formas é o mesmo que nada, não faz sentido”, diz Sifu.

Manoplas, sacos e bonecos de pancada, pneus, elásticos, cordas e outros equipamentos dão o toque de modernidade e complementam o treino tradicional de punhos vazios, com armas e no “boneco balança” articulado, chin jong (秤樁). Sessões de sparring e atividades de Saan Sau (Sanshou – 散手), com quedas e apresamentos característicos do Choy Lee Fut, mantêm a modalidade atual e eficiente.

Fiel à missão que assumiu, mestre Wong Zen Yem tem difundido o Choy Lee Fut ancestral no mundo ocidental valendo-se das redes sociais para divulgar seus vídeos técnicos e as atividades internas e públicas do núcleo de Nova York. Paralelamente, sua escola tem participado de incontáveis apresentações, festivais e torneios, obtendo sempre excelentes resultados.

Mesmo sem qualquer aparato de promoção, Sifu Wong também tem atraído alunos de outros países, que atravessam hemisférios e oceanos para desfrutar de sua companhia e imergir em seus preciosos ensinamentos. Em decorrência, alunos por ele considerados aptos atualmente transmitem o Choy Lee Fut ancestral na França, no Chile e no Brasil.

Sediada na capital do Rio de Janeiro, a ramificação brasileira da Associação Pugilística de Choy Lee Fut Ancestral de San Wui (新会蔡李佛始祖拳会巴西分会) teve sua semente lançada em 2011. Desde então, apesar do treinamento ininterrupto e da realização de seguidos intercâmbios privados com escolas de diferentes modalidades de artes marciais, manteve-se fechada ao público, na medida em que seus dois integrantes mais antigos possuem profissões e compromissos que lhes permitem, apenas, cuidar de um pequeno agrupamento, sem qualquer finalidade de lucro.

Conclusão

Conforme explicitado no início deste trabalho, nossa intenção foi a de preencher lacunas e oferecer ao leitor dados interessantes e, no mais das vezes, desconhecidos até mesmo de praticantes da modalidade.

Não pretendemos esmiuçar a história do Choy Lee Fut de um modo geral, tampouco entrar em detalhes acerca de outras ramificações, não só porque não nos julgamos habilitados a fazê-lo, mas também porque não nos dispomos a atentar contra a delimitação do tema.

De toda sorte, esperamos ter atraído a atenção e despertado o interesse de quem chegou até aqui.

Comentários e críticas construtivas serão bem-vindos, podendo ser encaminhados através de nosso perfil Choy Lee Fut Rio de Janeiro no Facebook ou choyleefut.rio no Instagram, ou, ainda, pelo e-mail choyleefut.rio@gmail.com. Se nos chegarem também manifestações de apreço por nossa singular arte marcial, teremos a certeza de que também deixamos uma contribuição, ainda que diminuta, para que o engrandecimento do Choy Lee Fut ancestral.

Warner Lopes is a Northern Shaolin teacher, south american traditional kungfu champion and member of Brazil National Team. He also studies Xinhui's Choy Lee Fut under Sifu Marcelo Alexandrino